UM LIVRO SOBRE REALIDADE...
Brianna Jackson é uma jovem de 16 anos que sonha em transformar a sua vida. Seu pai foi morto, sua mãe já foi uma viciada em drogas e hoje, a família luta pra sobreviver com o salário da mãe e do irmão, mas sempre com alguma coisa estando em falta. Gás, luz, aluguel, comida, roupas, algo sempre está em situação precária, como sabemos ser a realidade de tantas pessoas pelo mundo.
Além desses problemas, a cor da pele e o bairro de onde ela vem trazem ainda mais desafios. Toda a ira de Bri com as questões diárias de racismo, preconceito e precariedade, é transformada em versos. Seu sonho é ser rapper, mas pra isso, muitos desafios vão precisar ser superados.
Minha segunda experiência com a autora e mais uma vez, ela usa do seu espaço pra ampliar a voz dos negros e dos pobres. Ela consegue através de suas palavras imprimir muito bem a realidade. Em junho nós vimos o mundo se comover com a morte de um homem negro pela polícia e aqui, nós lemos o quanto os negros/latinos são perseguidos, simplesmente por serem quem são.
Outra questão bastante importante que Angie traz nessa trama é a questão do machismo dentro da indústria musical, sobretudo dentro do rap e do hip-hop. Os homens a vêem como uma simples "garotinha" ou como sua mina de ouro, sem se importar com quem de fato ela é e o que ela gostaria de dizer. Os esteriótipos que jogam em cima de mulheres que se posicionam também se fazem presentes. Além disso, Angie consegue trazer a representatividade não só negra como LGBTQ+.
Mas além de todas essas questões tão reflexivas sobre a vida das ruas, Na hora da virada é um livro que fala de sonhos, de prioridades, de lealdades e de nunca desistir daquilo que almejamos.
Editora: Galera Record
Páginas: 378
Ano da edição: 2019
20 de novembro, dia da Consciência Negra. Desde que o mês começou venho trazendo dicas de leituras relacionadas a essa data, e hoje, no dia exato, não poderia ser diferente.
Em O ódio que você semeia, de Angie Thomas, conhecemos Starr, uma jovem negra que sofre dilemas de identidade, já que estuda em uma escola predominantemente branca e mora em um bairro predominantemente negro. Starr e seus irmãos são ensinados desde sempre pelo pai a como se comportar diante de policiais: não faça movimentos bruscos, deixe sempre as mãos à mostra, só fale quando te perguntarem algo, seja obediente.
– Isso é a suposta arma – explica a Sra. Ofrah. – O policial Cruise alega que a viu na porta do carro e supôs que Khalil estava indo pegar. O cabo era grosso e preto o bastante para ele supor que era uma arma.– E Khalil era preto o bastante.
Quando ela e o melhor amigo são parados pela polícia, Starr automaticamente lembra das regras e as segue, esperando que Khalil faça o mesmo porque qual coisa "errada" pode ser fatal, e é. Starr vê seu amigo ser assassinado pela cor da sua pele. E a gente sabe que isso acontece na realidade. É um guarda-chuva confundido com arma, são 80 tiros por "engano".
A partir desse acontecimento, Starr vai precisar ser forte e encarar muitos desafios na busca pela justiça. Além do livro, indico também a adaptação, que tirou algumas partes de questões mais adolescentes que há no livro e que realmente, ao meu ver, não eram necessárias. A adaptação consegue passar a quem assisti a mesma mensagem que o livro.
Esse é o problema. Nós deixamos as pessoas dizerem coisas, e elas dizem tanto que se torna uma coisa natural para elas e normal para nós. Qual é o sentido de ter voz se você vai ficar em silêncio nos momentos que não deveria?
O ódio que você semeia é um livro de ficção, muito real. Precisamos ler, assistir e refletir sobre esse assunto. Entender que mesmo que isso não aconteça na sua realidade, ela acontece na realidade de muitos. Leiam e assistam!
Starr é uma jovem dividida entre dois universos. Uma menina negra de bairro marginalizado, mas que estuda em uma escola predominantemente branca, onde ela é uma dos dois únicos alunos negros. Ela age de forma diferente nesses locais porque a única coisa que ela quer é passar despercebida.
Porém a vida da jovem se torna conturbada quando após sair de uma festa com seu amigo, eles têm o carro parado pela polícia. Sem que tenham feito nada de errado, Starr e Khalil estão na mira de um policial. E quando menos se espera tiros são disparados e Starr assiste ao assassinato de seu melhor amigo.
Quando se vê o quanto uma pessoa está fragilizada, é o mesmo que vê-la nua, e não tem como olhar para ela do mesmo jeito.
Não demora para que o caso esteja nos jornais e que muitos questionamentos surjam. Khalil era traficante? Bandido? Isso justificaria a morte? Um negro. Desarmado. Assassinado. Quantos casos não vemos pelo mundo praticamente igual a esse, em que um negro é sempre suspeito? Já vimos também a polícia confundindo guarda-chuvas com armas e metendo bala em preto.
O negro. O morador de favela. O do bairro perigoso. Sempre é julgado primeiro. Isso é real. O livro tem uma carga reflexiva gigante. O racismo, o jovem que vê no tráfico a única vida que conhece e que vai proporcionar uma vida melhor. Porque gente, caiam na real, isso não é raro, é realidade.
Os senhores de escravos também achavam que estavam fazendo a diferença na vida dos negros. Que os estavam salvando do 'jeito selvagem africano'. Mesma merda, século diferente. Eu queria que pessoas como eles parassem de pensar que gente como eu precisa ser salva.
Além dessa questão do assassinato, o livro traz outras questões, como a família de Starr ser ameaçada e a busca da jovem pela sua identidade. Os personagens que cercam a família central tem muitas questões que nos fazem refletir e levar uns tapas na cara. Um livro extremamente necessário e que eu recomendo demais a leitura.
Precisamos lutar contra o racismo. Precisamos lutar pela igualdade em todos os níveis. Precisamos entender que nem todo mundo tem as mesmas condições na vida. Esse livro pode ser ficção, mas é extremamente real, então vamos ler e sobretudo refletir sobre o que lemos.
Ficha técnica
Autora: Angie Thomas
Editora: Galera Record
Ano: 2017
Páginas: 378
NOTA: 5/5 🌟