Na figura de Marcos Tejo, um personagem que se mostra profundo e complexo, embarcamos numa história que leva a questionamentos éticos e morais. Uma trama violenta, na qual Bazterrica não poupa o leitor da brutalidade humana nessa nova realidade vivida. A distopia, apesar de fictícia retratando uma realidade imaginada, traz inúmeras reflexões sociais que condizem com a sociedade atual como o consumo, a ganância e sobretudo o usa da sobrevivência como ponte para a barbárie.
Todos os personagens de uma forma ou de outra, são cúmplices das atrocidades cometidas. Alguns, realmente, sequer questionam a normalização do canibalismo. É fácil ver nas mesas de banquetes um braço assado. Interessante que a autora também traz questões sociais de desigualdade, que seguem presente nesse novo contexto social. Há quem tenha poder para estocar carne de alta qualidade e há os que para tentar sobreviver, usam até mesmo cadáveres, o que levou a uma prática maior de cremação.
Por ser uma trama que explícita uma violência tão crua não acho que seja recomendável para todos os leitores, mas apesar de todo horror, as reflexões estão ali. Contundentes. Sem máscaras. E de tirar o fôlego.
"Saboroso cadáver" é uma história que horroriza e entristece pela semelhança de discursos convenientes, gananciosos da realidade. O capitalismo que devora os trabalhadores, a moral e a ética que se moldam para a própria conveniência. Bazterrica desenvolveu um universo de horror, muito bem trabalhado com temas reais.
