Leitura incômoda:
Pilar Quintana não vai facilitar a sua vida. Suas histórias são sempre, de uma forma ou de outra, incômodas. Ela não pretende deixar que seu leitor passe ileso.
Temas que muitos evitariam abordar, mas ela tem coragem suficiente de trazer e tratar de formas bastante cruas. Sem tentar diminuir os impactos.
Talvez, o estilo das narrativas e os temas não agradem a todos, entretanto, acredito que é sua singular narração e as temáticas que aborda, que fazem dela, uma autora tão potente.
Colômbia:
Eu aposto que muitos de vocês ainda não leram um autor(a) colombiano(a). Se ainda não o fizeram, Pilar Quintana é uma excelente opção para começar a conhecer a literatura desse país.
Além de ser colombiana, as tramas de Pilar nos levam mesmo para dentro da Colômbia. Sempre me parece interessante demais conhecer, por meio da literatura, a cultura, a paisagem e as vivências de um outro povo, embora as vivências dos livros de Quintana atravessem fronteiras.
O feminino:
Os temas abordados pela autora sempre são daqueles que atravessam o universo feminino. Há nas personagens e histórias de Quintana inúmeras das realidades, que como mulheres já vivenciamos ou conhecemos alguma mulher que o tenha vivido.
As questões maternas – as pressões sociais, o desejo de o ser, as relações com os filhos –, são bastante trabalhadas pela escritora. Os medos, os anseios e as dores pelas quais desde crianças somos assoladas, em maior ou menor medida de fazem presentes nas personagens, tão imperfeitas e humanas. Pilar coloca o feminino em evidência e usa de assuntos profundos, tabus, para provocar a reflexão do seu leitor.
Rosa largou a vida que tinha para viver no simples. Essa ideia que ela já havia internalizado, ganhou vida quando ela conheceu o aventureiro irlândes Gene, com quem hoje divide a vida na selva. Sim, isso mesmo. Ela largou emprego, cidade e vive numa cabana inacabada no meio de uma área florestal colombiana.
Gene precisa viajar para tratar de assuntos sobre seu visto, já que é um estrangeiro neste país e Rosa ficará sozinha por algum tempo na habitação deles. Mas será que ela será capaz de se manter segura vivendo num ambiente hostil sem ninguém junto a ela? Será que as noites negras a engolirão?
Esta é minha terceira experiência com Pilar Quintana e acho que já posso dizer que ela tem o dom de me causar incômodo com suas histórias. Aquele tipo de incômodo feito para dar o efeito de reflexão. Diferente dos outros dois livros que falam muito sobre a questão materna para a mulher, neste ela traz o medo e a solidão. Rosa sozinha lida com sua própria mente, inclusive, revivendo momentos de seu passado.
Com essa personagem, a autora trabalhou os medos do abandono, a carência, o desamparo. Para além desses sentimentos, Rosa vive um medo pelo qual todas nós, mulheres, já passamos: o medo dos homens. Ela sozinha, numa casa insegura e rodeada por vizinhos do sexo oposto, me causaram uma angústia imensa. E entendi cada vez em que Rosa se enervou. Um sentimento vivido por nós em diferentes lugares do mundo, mesmo em lugares em que deveríamos nos sentir seguras.
A trama se desenvolve em alguns dias nos quais acompanhamos essa mulher vivendo seus dias e seus temores. E por mais que minha vida não tenha nenhuma semelhança com a de Rosa, consegui ser transportada para essa Colômbia e para essa mente em dias de perturbações e aflições. "Noite negra" entrega uma história de medo, solidão e reflexão com uma narradora assombrada por sua própria mente.
Pilar Quintana | Intrínseca
⚠️ CW: depressão, suicídio
Claudia é só uma criança que vive com os pais em Cáli, na Colômbia. E são as percepções dela que acompanhamos nessa história. Apesar de ser uma criança ela sente as coisas à sua volta e isso a afeta de muitas maneiras. Ela sabe que o relacionamento dos pais nem sempre é fácil, ela assiste e ouve as muitas brigas, e que a mãe passa por momentos difíceis com a depressão.
Essa não é uma história com muitos acontecimentos surpreendentes, é mais uma história de cotidianos, pode passar até a sensação de monotonia, mas é uma história de camadas profundas.
Numa escrita bonita e fácil, Pilar Quintana aborda o tema da maternidade. A mãe dessa menina não tinha esse desejo de ser mãe, mas a sociedade lhe impôs e assim, ela acaba não sendo a melhor das mães. Uma mãe desatenta, desatenciosa e que não se importa muito com os sentimentos da filha, muitas vezes nem os percebendo. É descuidada no que fala para a filha, por vezes tocando em assuntos de uma forma que não deveria. Além disso, por ter tido seus desejos podados, as imposições sociais a adoeceram e acho que muitas das atitudes que ela tem com essa filha também tem relação com a depressão.
Claudia percebe a doença da mãe, o mal que lhe faz e tem medo de que a mãe atente contra a própria vida. Ela teve de amadurecer mais rápido do que o saudável para uma criança e faz refletir em quantas vezes não nos damos conta de como nossas falas e atitudes podem afetar uma criança. Seja ela nossa própria filha ou não. As crianças percebem e sentem muito mais do que se pode imaginar.
Apesar de não ter amado o livro, nem o sentido de forma mais visceral como aconteceu com 'A cachorra' da mesma autora, ainda assim foi uma leitura reflexiva. Recomendo a leitura para aqueles que gostam de dramas familiares e não se importam com uma narrativa mais cotidiana do que com muita ação. Pilar tem uma escrita excelente e não posso deixar de exaltar a diagramação impecável dessa edição da Intrínseca.