O quarto de Jacob representou uma grande reviravolta na trajetória de Virginia Woolf. Dizem que, nessa obra, ela buscava sua própria voz e a inovação literária que viria a marcar sua carreira. De fato, a estrutura que ela propõe nessa narrativa é o embrião do que aperfeiçoou em Mrs. Dalloway — livro que ainda não li, mas pretendo.
Em O quarto de Jacob, ironicamente, não chegamos a conhecer o protagonista de verdade. Jacob nos é apresentado desde a infância até sua morte precoce na juventude, mas tudo o que sabemos sobre ele nos chega filtrado pelas visões, memórias e perspectivas de outros tantos personagens. Confesso que esse aspecto me pegou de surpresa, causando um certo estranhamento e confusão narrativa no início.
Ler esse clássico é um desafio. A escrita possui saltos temporais abruptos, mudanças constantes de foco, e Jacob parece uma figura enfumaçada no meio de tantos olhares cruzados. Essas transições de ponto de vista levam à questão central que o livro gravou em mim: o que resta de nós além das impressões que deixamos nos outros? A obra me fez refletir sobre as nossas múltiplas faces perante pessoas diferentes; afinal, muito do que somos para alguém depende do que esse alguém representa para nós.
Embora a leitura tenha sido árdua devido a essa fragmentação de perspectivas, saio com a certeza de que este é o tipo de livro que se engrandece em uma releitura. Por isso, sei que voltarei a ele em algum momento. Apesar de não ter sido a mais fluida das experiências, o livro me presenteou com reflexões profundas e trechos marcantes. Afinal, ler Woolf é sempre um privilégio.
Júlia Lopes de Almeida nasceu em 24 de setembro de 1862, no Rio de Janeiro. No ano de 1886 viajou para Portugal, onde se casou com o escritor português Filinto de Almeida; publicou seu primeiro livro,
Traços e iluminuras, livro de contos que foi escrito entre os anos de 1883 e 1887, entre Brasil e Portugal. Foi publicado quando a autora tinha 24 anos de idade.
Ela foi considerada uma escritora com ideias avançadas para a sua época. Uma mulher defensora da abolição da escravatura, da república, do divórcio, da educação formal de mulheres e dos direitos civis. No Brasil escreveu para diversos jornais, atividade incomum às mulheres de sua época. Foi a única mulher entre os idealizadores da Acadêmia Brasileira de Letras, mas impedida de ocupar um cargo na mesma, sendo preterida por seu marido.
Júlia deixou uma vasta quantidade de obras e não só tem destaque como escritora, mas também como jornalista, tendo atuado por mais de 30 anos em jornais do país. Porém, não vemos tanto a sua obra difundida e nem seu nome ser aclamado, como o de escritores homens. Pensando bem, é tão mais fácil citar clássicos da literatura escritos por eles do que por elas, não é mesmo?
Pude conhecer a escrita da autora com o livro "Memórias de Marta", que é um romance de formação e narra a história de mãe e filha. Uma trama curta, objetiva e que demonstra algumas críticas sociais. Uma história sensível que me marcou pela relação maternal e por uma mãe, que viveu pela filha e por conquistar para ela, algo que não teve para si.
Graciliano Ramos trouxe em S. Bernardo um protagonista cheio de defeitos morais, que narra ao leitor a sua própria história. Paulo Honório era pobre, passou por poucas e boas na vida até que com suor e sangue conseguiu conquistar a fazenda que dá nome ao livro.
Em S. Bernardo ele cultiva e conquista o seu tão sonhado lugar ao sol, com uma prosperidade boa em seu futuro. Paulo em algum momento dessa jornada decide que quer mais, algo como uma família e é aí, que suas atitudes e escolhas se mostram maléficas para si próprio e não apenas para os outros.
Esse foi meu segundo contato com o autor e acredito, que por já conhecer a sua forma narrativa e linguística, essa foi uma leitura mais fácil pra mim. Logo nas primeiras páginas já fui envolvida pela trama e para onde se encaminharia a história de Paulo Honório, que narra a sua própria história como se nos estivesse apresentando sua biografia. Um personagem de caráter bastante duvidoso e que ao longo da narrativa leva o leitor a ter sentimentos conflituosos sobre ele.
Graciliano me parece aquele tipo de autor que soube escrever histórias atemporais, que mesmo hoje em dia, conseguimos refletir com acontecimentos atuais e pensar o nosso próprio redor. Com Paulo Honório e sua história, pensei demais acerca do capitalismo e quanto de desigualdades ele produz e o quanto leva às pessoas a agirem pensando apenas em si próprio e em suas próprias ganâncias.
Não esperava que a trama também fosse conseguir me pegar de surpresa, mas aconteceu. Um acontecimento trágico que não estava esperando e que, nesse ponto é o que faz o próprio protagonista a perceber seus erros.
Pode ser clichê, mas com esse livro a gente se lembra das coisas tão significativas da vida que o dinheiro não compra. Ter dinheiro obviamente traz conforto, mas não é a garantia de amor e felicidade.
Meu terceiro contato com o autor e o meu livro favorito dele, até então. Oliver Twist conta a história de um menino que ficou à própria sorte na vida, quando sua mãe morreu logo no parto.
Oliver viveu seus primeiros anos aos cuidados de uma paróquia, que na verdade, não tinha cuidado nenhum com aqueles aos quais chamavam de indigentes. Um lugar que deveria ser de acolhimento e amor, foi um lugar no qual ele sofria maus tratos. E foi doloroso ler como um órfão era tratado, porque sim, esse é o retrato de uma época embora fictício.
E a sorte de Oliver parecia que não existia. Ele viveu uma infância de desgraças e até com uma gangue de bandidos se viu envolvido. E quando não era uma coisa era outra para fazê-lo sofrer. E como eu sofri junto com ele e também como torci para que essa sorte mudasse.
Mas para além de uma trama que fala sobre as mazelas de um órfão, é também uma história que carrega muita crítica social. Um livro que leva a pensar sobre preconceitos, sobre o julgamento social e a desigualdade, que leva a tantos por caminhos tortos aos quais muitas vezes julgamos, mas não cogitamos pensar nos por quês. Nos lembra que pessoas com autoridades nem sempre são as melhores e que podem abusar de seus cargos de poder.
O livro conseguiu me chocar com acontecimentos finais que eu definitivamente não esperava, e apesar de achar que o final não precisava ser tão corrido, mesmo assim não perdeu seu brilho pra mim essa história. Além de Oliver, me envolvi com os demais personagens e pude ter o coração finalmente aquecido no concluir dessa história. Foi uma experiência incrível e que levarei no meu coração.
Escrito e publicado na década de 1920, 'De passagem' também pode ser encontrado pelo título 'Identidade'. Nella Larsen escreveu essa história que se tornou um clássico do movimento de Renascença do Harlem, trazendo uma trama que fala sobre a época e suas questões sociais, raciais e de classe.
A trama é centrada na história de Clare e Irene, ambas cresceram juntas mas acabaram se distanciando na adolescência. Já adultas acabam se cruzando casualmente e percebem o quanto a vida as distanciou em muitos aspectos. A única coisa que elas possuem em comum é mesmo o passado e a negritude de seus corpos.
Clare hoje se passa por uma mulher branca. Foi esse o modo que ela decidiu viver na sociedade. Por ser uma negra de pele clara, ela teve essa possibilidade e foi o caminho ao qual escolheu. Nem mesmo seu marido sabe de suas origens. Hoje ela vive de aparências, mas podemos notar que as escolhas dela não a levaram completamente à felicidade.
Já Irene não nega suas origens apesar de seu tom de pele mais claro. Ela vive como uma mulher negra, cercada por sua comunidade e aparentemente tem uma vida feliz com sua família. Seus único atrito familiar é o desejo do marido, médico promissor, de se mudar para o Brasil.
São essas duas histórias que se emaranham e nos dão o tom dessa narrativa. Mesmo sendo uma história curta, Nella mostra muito bem a sua escrita potente e sensível. Com personagens profundas que em poucas páginas fazem com que o leitor sinta seus anseios, dores e questões. Mostrando a realidade da época com suas questões acerca de racismo, classes sociais e mostrando tão bem a questão do colorismo, que na época não era discutido tão abertamente.
Com um final que me pegou em total surpresa pois não imaginava os caminhos que a história tomaria, 'De passagem' foi uma leitura surpreendente, sensível e reflexiva. E agora, vou correndo assistir a adaptação disponível na Netflix, com o nome 'Identidade'.