Escrito e publicado na década de 1920, 'De passagem' também pode ser encontrado pelo título 'Identidade'. Nella Larsen escreveu essa história que se tornou um clássico do movimento de Renascença do Harlem, trazendo uma trama que fala sobre a época e suas questões sociais, raciais e de classe.
A trama é centrada na história de Clare e Irene, ambas cresceram juntas mas acabaram se distanciando na adolescência. Já adultas acabam se cruzando casualmente e percebem o quanto a vida as distanciou em muitos aspectos. A única coisa que elas possuem em comum é mesmo o passado e a negritude de seus corpos.
Clare hoje se passa por uma mulher branca. Foi esse o modo que ela decidiu viver na sociedade. Por ser uma negra de pele clara, ela teve essa possibilidade e foi o caminho ao qual escolheu. Nem mesmo seu marido sabe de suas origens. Hoje ela vive de aparências, mas podemos notar que as escolhas dela não a levaram completamente à felicidade.
Já Irene não nega suas origens apesar de seu tom de pele mais claro. Ela vive como uma mulher negra, cercada por sua comunidade e aparentemente tem uma vida feliz com sua família. Seus único atrito familiar é o desejo do marido, médico promissor, de se mudar para o Brasil.
São essas duas histórias que se emaranham e nos dão o tom dessa narrativa. Mesmo sendo uma história curta, Nella mostra muito bem a sua escrita potente e sensível. Com personagens profundas que em poucas páginas fazem com que o leitor sinta seus anseios, dores e questões. Mostrando a realidade da época com suas questões acerca de racismo, classes sociais e mostrando tão bem a questão do colorismo, que na época não era discutido tão abertamente.
Com um final que me pegou em total surpresa pois não imaginava os caminhos que a história tomaria, 'De passagem' foi uma leitura surpreendente, sensível e reflexiva. E agora, vou correndo assistir a adaptação disponível na Netflix, com o nome 'Identidade'.
Outubro é um dos meses que os leitores mais buscam leituras temáticas, pelo menos, assim me parece pelo tanto de posts que vejo quanto à isso. Mas não é só de horrores fictícios que vivemos. Existe um bem real e que afeta grande parte da população brasileira, o racismo.
E hoje deixo como dica essa leitura que fiz ano passado. Horror Noire tem uma narrativa bastante fluida mesmo tendo como base muitos estudos por parte de sua autora, Robin R. Means Coleman. A autora nos traz uma vasta análise dos filmes de terror ao longo dos anos e em como o racismo se fez presente nesse tipo de roteiro. Para os que gostam do mundo do cinema, eis aqui um prato cheio tanto para reflexão quanto para novos conhecimentos sobre filmes e como eles foram trabalhados.
Mais uma vez uma edição incrível da DarkSide Books e esse livro merece porque o tema dele é de suma importância. Não vejo ele ser dos mais comentados, mas deveria. Se você gosta de pensar e refletir sobre esse tipo de questão, não pode deixar passar essa leitura.
VOCÊ JÁ REPAROU QUAL O PAPEL E SE HÁ PAPÉIS NEGROS NOS SEUS FILMES FAVORITOS, SEJAM ELES DO GÊNERO QUE FOR?
Nos últimos dias atos racistas têm se propagado pelo mundo, atingindo todo tipo de ambiente e pensando nisso, resolvi trazer mais uma dica de leitura de autora negra, que retrata o povo negro da Nigéria. Leia autores e autoras negras, pense e reflita, seja você preto ou branco.
Agora vamos conhecer um pouco sobre esse livro?
Guerra Civil da Nigéria, também conhecida como Guerra Nigéria-Biafra foi um conflito político gerado no final dos anos 60, quando províncias do sudeste da Nigéria desejavam a separação. Durante os três anos desse conflito, vamos acompanhar três personagens centrais que se ligam dentro da trama e trazem consigo demais personagens secundários. O livro apesar de ficção se passa em um pano de fundo verídico, sendo então, um romance histórico.
Você nunca deve se comportar como se a sua vida pertencesse a um homem. Ouviu bem?', disse tia Ifeka. 'A sua vida pertence a você e só a você.
Além de nos apresentar a cultura nigeriana, a trama vai nos introduzir a questões familiares, a luta das mulheres dentro de uma cultura machista, personagens que não são nem bons nem maus, mas que são moldados pelas situações e seus lugares na vida. Personagens que são humanos e nos causam controvérsias de sentimentos.
Iria escrever sobre isso, sobre a regra do jornalismo ocidental: cem negros mortos equivalem a um branco morto.
Chimamanda é uma autora negra consagrada que traz aos leitores a voz do seu povo. Apesar de amar o tema e as questões históricas, não posso dizer que amei a leitura. Tive sim, as minhas ressalvas, mas mesmo assim, é um livro que indico pra quem deseja se aventurar nas questões mais históricas da África.
Agora questões para reflexão: você já leu algum autor africano? Quantos autores pretos há na sua estante ou na sua lista de leituras concluídas?
No ano passado a editora Gutenberg relançou um de seus livros, mudando o seu título. Anteriormente, o livro de Jennifer Brown foi lançado com o nome A lista negra. Mas como assim? Isso é racista? Sim, esse título - que é uma expressão bastante usada -, tem uma conotação racista, a partir do momento que utiliza da palavra negra, para se referir a algo ruim. Em uma excelente atitude, a editora lançou ele com o nome A lista do ódio.
Mas infelizmente, usar a palavra negro/a para se referir a algo negativo é comum em nossa linguagem. Mas alguém pode dizer: "mas que bobagem, acho que não tem nada a ver", e eu posso apostar que a pessoa que pensa isso, nunca foi julgada pela cor da pele e obviamente não se sente ofendido. Ou, essa pessoa pode estar tão acostumada com essas expressões que nem sente ou nem repara. Mas elas não deixam de ter uma conotação racista por isso.
Todo mundo já disse algo desse tipo alguma vez e tá tudo bem. É naturalizado, nem se percebe. Mas desde que eu me dei de conta e comecei a pensar sobre isso, nunca mais parei. E reparo nisso quando estou lendo qualquer livro. É inevitável. Mas isso não me impede de gostar de uma história ou algo assim. Como disse é naturalizado e nem todo mundo percebe. Mas gosto de perceber em mim mesma, que eu reparo e que eu me policio para não reproduzir.
Algumas expressões racistas que são naturalizadas:
- Mercado negro (negro associado como prejudicial, ilegal)
- Denegrir (significa tornar negro e é associado com manchar a imagem)
- Inveja branca (ideia do branco como positivo)
- Não sou tuas negas (dando a ideia de que não é uma mulher qualquer)
- Cor do pecado (sexualização sofrida pelas mulheres negras)
Esses são apenas alguns exemplos de expressões usadas e naturalizadas por muito tempo. Vocês já pararam pra pensar sobre isso? Não digo apenas em livros, mas na vida mesmo? Vocês entendem a importância de pensar o racismo estrutural?
Este é um dos oito livros autobiográficos da escritora. Marguerite Ann Johnson, mais conhecida como Maya Angelou, nos relata neste exemplar a sua infância e adolescência. Ele foi publicado em 1969, sendo narrado em primeira pessoa.
Ao contrário da maioria das autobiografias e biografias, essa tem uma narrativa literária, que em vários momentos, eu até mesmo me esquecia que se tratava de uma história real. Ela usa até mesmo diálogos na narrativa, o que acho bem interessante para aqueles que não lêem ou não têm costume com o gênero. Preciso dizer que nem toda narrativa me prendeu. Em alguns momentos achei algumas cenas um tanto longas e que não eram tão impactantes. Foi um livro que demorei um pouco, mas que valeu a pena.
Se crescer é doloroso para a garota negra do sul, estar ciente do seu não pertencimento é a ferrugem na navalha que ameaça a garganta.
Maya foi criada pela avó materna em boa parte da sua infância. Ela e o irmão compreenderam desde jovenzinhos, que o mundo para os negros não era da mesma forma que para os brancos. E quando passavam com a avó, Maya e o irmão, era os momentos na narrativa em que mais o racismo foi assunto presente, e que mais me trouxe reflexões quanto a isso. Em Stamps, a segregação racial era intensa e impossível a quem lê, não sentir o impacto.
Mas não foi apenas as questões de ser uma mulher negra que Maya enfrentou. Na infância, sofreu abuso sexual aos 8 anos de idade e foi tão duro ler, imagina como foi viver. Mas ela seguiu em frente apesar de tudo. Angelou é uma mulher inspiradora. Mesmo com tudo contra ela, ainda havia tempo para sonhar e ir atrás. Maya por sua perseverança se tornou a primeira mulher negra a ser motorista de ônibus em São Franscisco.
Era horrível ser negra e não ter controle sobre a minha vida. Era brutal ser jovem e já treinada para ficar sentada em silêncio ouvindo as acusações feitas contra a minha cor sem chance de defesa.
Obviamente ela conquistou ainda mais, mas esse livro nos conta a sua primeira parte da vida, por isso não vou me estender mais a vida dela, porém deixo aqui a dica para conhecerem tanto livros como a vida dessa mulher incrível.
Autora: Maya Angelou
Editora: Astral Cultural
Ano da edição: 2018
Páginas: 336
No dia 20 de novembro é celebrado o Dia Nacional da Consciência Negra. Essa data é dedicada para que possamos refletir sobre a inserção do negro dentro da nossa sociedade. A data foi escolhida pois é atribuída à morte de Zumbi dos Palmares, um dos maiores líderes negros do país que lutou pela libertação do povo negro perante o sistema escravista.
Pensando nisso, trago a indicação do meu livro favorito, que tem muita reflexão sobre o racismo e as injustiças que pessoas sofrem apenas por terem nascido com determinada cor de pele.
O sol é para todos escrito por Harper Lee, lançado em 1960 e vencedor do prêmio Pulitzer, se tornou um clássico da literatura mundial. O romance é baseado livremente em memórias da autora e eventos ocorridos em cidade próxima a dela, quando a mesma tinha 10 anos de idade.
(…) Se só existe um tipo de gente, por que as pessoas não se entendem? Se são todos iguais, por que se esforçam para desprezar uns aos outros?
Na história Atticus Finch é um advogado e cria seus dois filhos sozinho, Scout e Jem. As crianças tem um ótimo exemplo de pessoa para se guiarem, mas vão entender desde pequenos que injustiças acontecem, sobretudo com pessoas negras. O livro aborda o racismo e nos faz ter muitas reflexões. Inclusive, é leitura obrigatória das escolas nos Estados Unidos. É meu livro favorito e eu acho que todo mundo deveria ler e refletir com essa história.