Resenha | Toda caixa-preta é laranja

 "Toda caixa-preta é laranja" nos traz como protagonista uma mulher preta, bem-sucedida, que quando está prestes a embarcar para uma grande oportunidade de trabalho, se vê às voltas com o pai desaparecido. Para além dessa situação, a relação de ambos nunca foi das melhores, mas como ela poderia partir sem saber do paradeiro do pai? Seria ela capaz de encarar e seguir em frente? 

A protagonista tem muitas qualidades incríveis. Ela é mãe, mas não abriu mão de sua carreira, muito pelo contrário, hoje ela é uma das únicas mulheres que chegou em tal lugar na posição profissional. Vive um casamento bom, com uma marido que apoia suas decisões e sempre esteve disposto a cumprir o papel de pai para que ela fosse em busca de suas conquistas. Mas embora tenha todos esses pontos a favor, ela carrega as marcas do que lhe aconteceu na infância, como a morte da mãe e as ausências do pai. 

Acho que, primordialmente, o livro traz como grande questão esta: até que ponto as marcas da infância e as nossas questões familiares nos moldam? Uma protagonista que parece ser incrível, mas que ao longo da narrativa mostra que suas cicatrizes são profundas e trazem consequências em sua vida até o momento atual que está sendo narrado. 

Com uma narrativa que vai e volta, que mescla o passado e o presente, o leitor pode entender as questões da protagonista e de sua relação com o pai. Porém, apesar de compreender as situações, confesso que não consegui "passar pano" para algumas atitudes da protanogista e em muitos momentos até mesmo antipatizei com ela. Muitas de suas atitudes me soaram apenas como babaquice, porque uma coisa é carregar traumas e marcas, que em alguma medida todos nós carrregamos e outra é usar de sua história para justificar atitudes mesquinhas, egoístas. 

Essa é uma leitura mais contemplativa, sem tanta ação, o que talvez incomode um pouco alguns leitores. Sinto que vez ou outra senti a leitura como repetitiva, mas no geral, gostei dos temas abordados e acredito que boas reflexões possam ser feitas pelos leitores, como o abandono com presença, a maternidade padronizada e como relações familiares podem ser construídas de diferentes formas. 

Ainda que eu tenha preferido minha experiência com "Virginia mordida" da autora, acho que esse novo livro também proporciona uma discussão válida e interessante sobre as vivências. 

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