Resenha | Hamnet

A história começa apresentando um jovem, ao qual não se menciona o nome, que não se encaixa muito bem na família. Ele é um jovem de pensamentos, de intelecto em uma época (século XVI) a qual o que mais se esperava dos homens era a virilidade para o trabalho, prover seu sustento e de sua família. Considerado um homem fraco, excêntrico e fora dos padrões, ele dá algumas aulas de latim e é quando está prestando serviço na casa de uma família que conhece Agnes. 

Agnes, por sua vez, também é vista como excêntrica. Uma jovem mulher completamente fora dos padrões esperados pela sociedade no quesito comportamento. Complemente conectada com a natureza, com a terra e com dons que ninguém compreende bem, ela é dona de um ar místico único, o que gera muito falatório envolvendo seu nome. Mas o jovem dos estudos e a jovem da mata se encaixam. O destino deles está selado. Eles casam e começam a sua família nada convencional. Nas visões de Agnes sobre o futuro, ela tem dois filhos, mas a vida lhe presenteia com três: Susanna, a primogênita e os gêmeos Hamnet e Judith. O que ela não esperava era que um deles lhe seria tirado pela morte tão cedo. Hamnet adoece e aos 11 anos de idade, falece.  

Inspirado na história familiar de William Shakespeare, o título do romance histórico faz referência ao único filho homem do poeta, ator e dramaturgo. A autora escreve que a inspiração foi livre e que muitos fatos sobre a família não estão em registros e nem se sabe, de fato, como aconteceram. Mas Hamnet realmente faleceu ainda na infância e algumas especulações foram feitas, indicando que a peça "Hamlet" teria algode inspiração na vida desse filho perdido. 

Apesar de ser um romance inspirado na história familiar de tão célebre pessoa, Shakespeare é nada mais do que um figurante, ao qual, como dito anteriormente, nem ao menos tem o nome citado dentro da narrativa. Hamnet, o personagem que dá título ao livro é um coadjuvante, nele nós temos a grande questão norteadora da história mas ainda assim, o protagonismo não é dele. A personagem principal é Agnes, ela é o fio condutor do enredo e foram os sentimentos dela, os que a mim mais tocaram. 

Agnes é uma personagem ímpar, uma mulher totalmente a frente de seu tempo e que gera uma empatia enorme no leitor. Ela é a força dessa história, a potência dessa narrativa. Aqui cabe destacar como Maggie O’Farrell soube criar uma trama amarrada até mesmo pelos silêncios, pelos não ditos entre os personagens. Uma escrita delicada, sensível e de uma força sutil que arrebata. Enquanto lia, me sentia dentro do contexto e como se eu estivesse assistindo aos personagens de muito perto. 

"Hamnet" não é apenas um romance sobre luto, mas sobre as pessoas. Sobre os sentimentos, sobre o amor entre pessoas fora dos padrões, sobre as ligações tão profundas que construímos com o outro. Um romance histórico impecavelmente construído, com alternância de tempos narrativos e com um panorama histórico muito bem explorado. O livro faz conhecer, faz sentir e a mim, fez emocionar muito. 

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